Racha no PSOL: Dissidência Acusa Boulos de Abandonar o Partido para se Filiar ao PT, e Ministro Nega
- Kentidjern Herman
- há 3 horas
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POLÍTICA BRASIL • 21 de março de 2026
Racha no PSOL: Dissidência Acusa Boulos de Abandonar o Partido para se Filiar ao PT, e Ministro Nega

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil
Uma crise política aberta sacudiu o PSOL nesta sexta-feira (20). Uma dissidência interna do Movimento Revolução Solidária — corrente liderada pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos — divulgou uma carta acusando o ministro de ter decidido deixar o partido para se filiar ao PT de Lula. Boulos reagiu prontamente, negou a saída e classificou o documento como apócrifo e fruto de oportunismo. O episódio expõe, de forma pública e irremediável, a mais grave fratura interna do PSOL nos últimos anos — e acende o debate sobre o futuro político do ministro no cenário eleitoral de 2030.
O que diz a dissidência: na noite de quinta-feira (19), o Operativo Nacional da Dissidência da Revolução Solidária afirmou que Boulos comunicou sua saída do PSOL rumo ao PT. Segundo o grupo, a decisão teria sido tomada entre o fim de novembro e o início de dezembro de 2025, condicionada à garantia de recursos partidários para a candidatura de sua esposa, Natália Boulos, à Câmara Federal. A proposta de federação do PSOL com o PT — rejeitada pelo diretório nacional do partido em 7 de março por 47 votos a 15 — teria sido, segundo a dissidência, apenas um instrumento para viabilizar a migração.
A Crise que Estava Represada: Federação, Veto e Explosão Interna
A tensão interna no PSOL não surgiu da noite para o dia. Desde que Boulos aceitou o convite de Lula para assumir a Secretaria-Geral da Presidência, em outubro de 2025, setores do partido passaram a questionar abertamente a proximidade do ministro com o Palácio do Planalto. A corrente de Boulos, a Revolução Solidária, defendia a formação de uma federação com o PT para as eleições de 2026, argumentando que a aliança era necessária para o crescimento eleitoral da esquerda. O restante do partido discordava: 47 dirigentes votaram contra a federação no diretório nacional, aprovando a renovação da parceria com a Rede Sustentabilidade. Com a derrota na votação, a tensão se radicalizou.
A carta da dissidência, divulgada nas redes sociais, afirma que Boulos comunicou pessoalmente aos membros da Coordenação Nacional da Revolução Solidária, na quinta-feira à noite, que irá migrar para o PT. O grupo que assina o documento, sem identificar seus integrantes, afirma ainda que a tentativa de federação foi um pretexto para facilitar a saída. A nota cita que, junto com Boulos, sairiam do PSOL militantes ligados ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), base histórica do ministro. Boulos, em sua resposta, classificou o texto como mentiroso e negou enfaticamente qualquer decisão de migração: o Movimento Revolução Solidária, disse, ainda discute seus rumos internamente.
O Que Está em Jogo: 2026, 2030 e a Herança Política de Lula
Por trás do racha está uma disputa mais profunda: quem será o herdeiro político de Lula? O ministro é amplamente visto como o nome mais cotado pelo presidente para representar o campo progressista em 2030, quando Lula encerrará o terceiro mandato constitucionalmente permitido. A lógica é simples: para disputar a presidência pelo PT, é necessário ser filiado ao partido. Sem essa filiação, qualquer projeto presidencial de Boulos ficaria dependente de uma aliança externa ou de uma chapa inédita — cenários politicamente mais complexos. Em 2026, Boulos não disputará nenhum cargo: ao assumir o ministério, abriu mão do prazo legal de desincompatibilização exigido pela legislação eleitoral.
O PT, por sua vez, tem buscado ativamente ampliar sua base em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. Além de Boulos, o partido também estendeu um aceno à deputada Erika Hilton (PSOL-SP), autora da PEC do fim da escala 6x1. A entrada de um ou ambos fortaleceria a legenda num estado onde o puxador de votos do PT em 2022 teve resultado modesto. O jornal O Globo foi o primeiro veículo a noticiar que Boulos havia informado sua decisão à executiva do PSOL, com a informação sendo confirmada pelo site O Antagonista. Mesmo diante da repercussão, Boulos manteve a posição de negar qualquer decisão definitiva.
O racha aberto no PSOL nesta sexta-feira não é apenas uma crise partidária pontual: é o sinal mais claro até agora de que o projeto político de Boulos está em movimento de colisão com a identidade histórica do partido. O PSOL nasceu de uma dissidência do PT em 2004 e carrega no DNA uma identidade de independência em relação ao partido de Lula. A aproximação de Boulos com o Planalto, a defesa da federação e as acusações de migração para o PT reabrem essa ferida fundadora. Se a saída de Boulos se confirmar — o que ele nega —, o partido perderá seu quadro mais votado e provavelmente uma fatia significativa de sua base no MTST. Se permanecer, terá que conviver com um racha que já se tornou público e irreversível. Para o PT e para Lula, o episódio é favorável: fortalece a narrativa de que o campo progressista se consolida ao redor do presidente, e posiciona Boulos como herdeiro natural para 2030 — com ou sem filiação formal declarada.
Fonte: Agência Brasil / O Antagonista / Poder360 / Brasil de Fato





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