Entre o Coronelismo e a Renovação: Os Desafios da Juventude Maranhense na Política
- Kentidjern Herman
- há 5 dias
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POLÍTICA MARANHÃO • 11 de junho de 2026
Entre o Coronelismo e a Renovação: Os Desafios da Juventude Maranhense na Política

Foto: Reprodução / O Imparcial
O Maranhão carrega marcas profundas de desigualdades socioeconômicas históricas, e a juventude desponta como um dos elementos centrais na disputa por transformação política e social do estado. Uma reportagem especial publicada pelo jornal O Imparcial ouviu duas lideranças jovens que atuam na política maranhense sob perspectivas distintas: Gleide Daniela de Jesus Costa, de 32 anos, e Allan Pereira, de 20 anos, quilombola e consultor da Organização das Nações Unidas. Ambos revelam que o caminho é marcado por barreiras estruturais, herança coronelista e exclusão das decisões estratégicas.
"O Maranhão é um estado que politicamente sempre foi fechado em grupos e até famílias. Para um jovem sem sobrenome ou apoio conhecido de político, é cinco vezes mais difícil" — Allan Pereira, 20 anos, Consultor da ONU.
Da vivência comunitária ao espaço das decisões
Gleide Daniela de Jesus Costa é assistente social, servidora pública, primeira suplente de vereadora em Alcântara e atualmente Secretária de Política de Promoção da Igualdade Racial. Para ela, a entrada na política não foi planejada como carreira, mas emergiu da atuação direta com comunidades vulneráveis. "Ser política não foi um projeto pessoal inicial, foi um chamado construído a partir da minha atuação. Quando você trabalha diretamente com a população, escuta dores reais, constrói soluções e viabiliza direitos, começa a perceber que também precisa estar onde as decisões são tomadas", explica.
Allan Pereira, por sua vez, tem apenas 20 anos e acumula uma trajetória impressionante: Agente Territorial do Plano Juventude Negra Viva, Consultor da ONU e Conselheiro Estadual de Juventude do Maranhão. Nasceu e cresceu no Quilombo Liberdade, em São Luís. Seu despertar político ocorreu aos 15 anos, durante a pandemia de COVID-19, ao testemunhar o colapso dos serviços básicos de saúde e assistência social em sua comunidade. "A identificação completa pelo território me fez querer lutar por um dia melhor na comunidade e na escola, entender que nossas dores precisavam de um jovem para falar o que outros tinham medo", relata.
Um dos pontos mais críticos levantados pelos dois entrevistados é a diferença entre participação real e participação simbólica da juventude nas estruturas partidárias e de governo. Gleide afirma que os jovens ainda são convocados, na maioria das vezes, para representar uma imagem de renovação, sem de fato serem incluídos nos processos decisórios. "Ainda somos chamados para representar renovação estética, mas não necessariamente para participar das decisões estratégicas. Essa atual situação exige compromisso e responsabilidade de nós, jovens, dispostos a mudar a realidade", pondera a secretária.
Allan aprofunda o debate ao destacar um obstáculo material frequentemente negligenciado: a sobrevivência econômica. Para o jovem das periferias e comunidades rurais, dedicar tempo à militância política é um luxo que a realidade não permite. "O jovem não tem tempo para engajar em lutas pois precisa trabalhar e estudar, e se torna um fardo. Enquanto o jovem tiver que trabalhar para ter que pagar até a passagem para estudar, não teremos o acesso pleno ao direito político e social", afirma o consultor.
O peso da herança coronelista no cenário político maranhense é outro elemento que os dois líderes identificam como barreira. Allan destaca a desigualdade de acesso dentro do próprio universo político: enquanto filhos de políticos são nomeados a cargos elevados, jovens sem conexões familiares precisam estudar e trabalhar muito mais para conquistar um espaço mínimo de fala. Gleide, por sua vez, aponta o clientelismo como o maior desafio cultural. "O que mais me marcou foi lidar com a velha prática política baseada na troca de favores e benefícios por voto. Isso sempre me doeu, porque acredito em política como direito, não como barganha", diz.
As trajetórias de Gleide e Allan evidenciam que existe uma nova geração de lideranças maranhenses disposta a romper com os padrões históricos da política estadual. Mas elas também deixam claro que o caminho é longo e permeado de obstáculos — econômicos, estruturais e culturais. Para que essa juventude possa de fato ocupar os espaços de decisão, será necessário mais do que vontade individual: é preciso transformar as condições materiais e culturais que ainda hoje mantêm as portas do poder fechadas para quem não tem o sobrenome certo.
Análise: O debate sobre a participação juvenil na política maranhense revela uma tensão estrutural que vai além do Maranhão. No Brasil inteiro, jovens de periferias e comunidades tradicionais enfrentam o duplo desafio de sobreviver economicamente e, ao mesmo tempo, tentar transformar estruturas políticas historicamente excludentes. O diferencial das duas lideranças ouvidas nesta reportagem está na consciência de que a renovação política não pode ser apenas estética — ela precisa ser substantiva, com jovens ocupando não apenas palanques, mas mesas de decisão. A eleição de 2026 será um teste relevante para medir se essa consciência consegue se traduzir em resultados concretos nas urnas e nas cadeiras do poder público maranhense.
Fonte: O Imparcial





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