Diesel Sobe 20% em Três Semanas, Caminhoneiros Dão Prazo de 7 Dias ao Governo e Greve Fica para Dia 26
- Kentidjern Herman
- há 2 horas
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ECONOMIA • 21 de março de 2026
Diesel Sobe 20% em Três Semanas, Caminhoneiros Dão Prazo de 7 Dias ao Governo e Greve Fica para Dia 26

Foto: Márcio Ferreira / Ministério dos Transportes / Agência Brasil
O Brasil chegou ao fim da semana com uma crise econômica de alto risco sob controle precário: a ameaça de greve dos caminhoneiros foi suspensa nesta quinta-feira (19) após uma assembleia em Santos (SP), mas a categoria manteve o estado de paralisáo e deu um prazo de sete dias ao governo federal para avançar nas negociações. Uma nova assembleia está marcada para o dia 26 de março, quando os caminhoneiros decidirão se deflagram ou não uma paralisáo nacional. O estópim da crise é a disparada do preço do óleo diesel: desde o final de fevereiro, o combustível acumula alta superior a 20%, impulsionado pela valorização do barril de petróleo no mercado internacional como consequência do conflito armado envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã e pelo fechamento intermitente do Estreito de Ormuz.
Os números da crise: diesel subiu de R$ 6,10 para R$ 6,80 na média nacional entre 1º e 19 de março, com picos acima de R$ 8 no Centro-Oeste. O barril de Brent saltou de US$ 72,48 para US$ 103,42 no mesmo período (+42,7%). O diesel representa cerca de 40% do custo do frete rodoviário. A Petrobras anunciou reajuste de 11,6% nas refinarias em plena semana de anúncio de medidas de alívio. Custo fiscal das medidas do governo até 31/12/2026: estimado em R$ 30 bilhões (zero PIS/Cofins + subsídio de R$ 0,32/litro via MP 1.340/2026).
O Pacote do Governo: Subsídios, MP 1.343 e a Batalha pelo ICMS
O governo Lula reagiu à ameaça de paralisáo com um pacote de medidas distribuído ao longo da semana. Em 12 de março, editou o Decreto nº 12.875/2026, zerando as alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel, e a MP 1.340/2026, que cria uma subvenção de R$ 0,32 por litro para produtores e importadores, com objetivo de reduzir em R$ 0,64 o preço nas bombas. Na quinta-feira (19), publicou a MP 1.343/2026, que endurece radicalmente a fiscalização do piso mínimo do frete. A medida torna obrigatório o registro de todas as operações de transporte por meio do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), vinculado ao Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais. Sem esse código, o frete não pode ser realizado. Na prática, operações abaixo do piso mínimo serão bloqueadas ainda na fase de contratação.
As penalidades previstas pela MP são severas: multa de R$ 10,5 mil por operação não registrada no CIOT; multas entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões por operação irregular para empresas contratantes; suspensão do Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC) para reincidentes; e cancelamento do registro por até dois anos em casos graves, com responsabilização estendida a sócios e grupos econômicos. O governo ainda negocia com os governadores a suspensão temporária do ICMS estadual sobre o diesel, propondo compensar 50% da renúncia fiscal pelos estados por dois meses. Governadores como Tarcísio de Freitas (SP), Cláudio Castro (RJ) e Romeu Zema (MG) resistem à medida, o que frustra o alinhamento federativo necessário para uma solução mais ampla.
O Dia 26 e o Que Está em Jogo para a Economia Brasileira
A assembleia de Santos decidiu conceder o prazo de sete dias, o que transfere a decisão final para o dia 26 de março. Antes disso, no dia 25, as lideranças da categoria se reunirão com o ministro Guilherme Boulos na Secretaria-Geral da Presidência. O presidente da Abrava, Wallace Landim, o Chorão, confirmou que o estado de greve permanece ativo. Para a categoria, o critério central é sentir os efeitos das medidas nas bombas — e não apenas no papel. A percepção de que os benefícios anunciados não chegam ao trabalhador final é exatamente o que alimentou a mobilização. A ANTT tem prazo de sete dias úteis para regulamentar os procedimentos de fiscalização previstos na MP 1.343, incluindo um gatilho automático para ajuste do frete mínimo sempre que o diesel oscilar mais de 5%.
O impacto potencial de uma greve nacional de caminhoneiros é bem documentado pela memória da paralisáo de 2018, que durou dez dias e gerou desabastecimento em postos de combustíveis, falta de alimentos em supermercados e prejuízo estimado em dezenas de bilhões de reais. Em 2026, o cenario é agravado pelo fato de o movimento acontecer durante o escoamento da safra agrícola, um dos períodos de maior demanda por transporte rodoviário no ano. O governo obteve da Justiça Federal, em Santa Catarina, proibição de bloqueios nas BRs 101 e 470, com multas de R$ 10 mil para pessoas físicas e R$ 100 mil para lêderes de bloqueios — sinal de que o Executivo se prepara também para o cenário de paralisáo.
A crise dos caminhoneiros de março de 2026 não é apenas uma disputa trabalhista por frete e diesel: é o retrato de uma economia pressionada por um choque externo de grande magnitude. O conflito no Oriente Médio, ao impactar o preço do petróleo, expor o Brasil a uma vulnerabilidade estrutural que as privatizações da década passada agravaram. A venda da BR Distribuidora, citada por Boulos como um ponto de ruptura, eliminou o único instrumento de intervenção direta do Estado na cadeia de distribuição de combustíveis. Sem esse controle, o governo recorre a subsídios, zeramento de tributos e pressão sobre governadores — ferramentas com custo fiscal elevado e efeito incerto na ponta. O dia 26 dirá se o pacote foi suficiente para convencer a categoria. Mas a conta, seja na forma de greve ou de subsidíos, chegará ao país de qualquer maneira.
Fonte: Agência Brasil / Poder360 / Gazeta do Povo / Infomoney / Casa Civil





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