Ata do Copom Revela que Banco Central Suspende Sinalização de Novos Cortes na Selic Diante da Incerteza Geopolítica
- Kentidjern Herman
- há 7 horas
- 3 min de leitura
ECONOMIA • 24 de março de 2026
Ata do Copom Revela que Banco Central Suspende Sinalização de Novos Cortes na Selic Diante da Incerteza Geopolítica

Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil
O Banco Central do Brasil encerrou o ciclo de sinalização antecipada sobre a trajetória da taxa Selic. A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) realizada na semana passada, divulgada nesta terça-feira (24) em Brasília, deixou claro que o colegiado não indicará, por enquanto, o ritmo nem a magnitude dos próximos ajustes nos juros básicos da economia. A decisão reflete o forte aumento da incerteza geopolítica provocado pela escalada do conflito no Oriente Médio, que alterou de forma significativa as perspectivas econômicas globais e elevou as expectativas de inflação no Brasil acima da meta em todos os horizontes de tempo. Na reunião da semana passada, o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, levando-a de 15% para 14,75% ao ano.
Números da política monetária atual: Selic atual: 14,75% ao ano (após corte de 0,25 p.p. na reunião de 19/03) | Expectativa de mercado para a Selic em dezembro de 2026: 12,5% ao ano | Meta de inflação (CMN): 3% ao ano, com banda de 1,5% a 4,5% | Projeção do mercado para o IPCA em 2026: 4,17% (acima do centro da meta) | Histórico: Selic estava em 15% ao ano desde junho de 2025; o ciclo de alta começou em setembro de 2024, quando os juros saíram de 10,5% ao ano | Próxima reunião do Copom: sem data futura sinalizada na ata.
Por Que o BC Recuou na Sinalização
Até o início dos conflitos armados no Oriente Médio, o Copom havia dado sinais de que iniciaria um ciclo de redução gradual das taxas — o chamado ciclo de calibração —, ainda que mantendo uma postura restritiva. A ata da reunião de janeiro havia sinalizado esse movimento, e o mercado havia se posicionado para um corte de 0,5 ponto percentual na reunião de março. O que mudou foi a escalada geopolítica: a deflagração de ataques militares de maior intensidade no Oriente Médio elevou o preço do petróleo, pressionou o câmbio e fez as expectativas de inflação subirem em todos os horizontes de tempo. Diante de um ambiente externo marcado por sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica global e pela indefinição sobre a política econômica dos Estados Unidos, o Copom decidiu calibrar o corte para 0,25 p.p. e, mais importante, retirar qualquer sinalização sobre os próximos passos.
A linguagem da ata é direta quanto ao diagnóstico: a magnitude e a direção do ciclo de ajuste da Selic serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às análises. O Copom descartou comprometer-se com qualquer trajetória de taxas enquanto a incerteza geopolítica permanecer elevada. Para o colegiado, a conjuntura atual exige perseverança, firmeza e serenidade — e uma postura restritiva por mais tempo do que seria adequado em um cenário de estabilidade.
O Peso das Contas Públicas e o Alerta Doméstico
Além do cenário externo, a ata do Copom reforça a preocupação com o ambiente fiscal doméstico. O Banco Central reitera que a sustentabilidade das contas públicas é um fator determinante para o sucesso do combate à inflação. A política fiscal, segundo o colegiado, não apenas impacta a demanda no curto prazo, como também molda a confiança dos investidores na trajetória da dívida pública brasileira. Quando essa confiança é abalada — por reformas adiadas, expansão do crédito direcionado ou dúvidas sobre a estabilização da dívida —, o mercado exige juros mais altos para financiar o país, elevando o que os economistas chamam de taxa de juros neutra. Uma taxa neutra mais alta encarece todo o processo de desinflação, tornando a política monetária menos eficaz e mais custosa em termos de atividade econômica.
O recuo do Copom na sinalização representa uma virada relevante para a política monetária brasileira em 2026. O mercado chegou ao início do ano esperando um ciclo ordenado de cortes na Selic ao longo dos meses, com a taxa recuando de forma previsível em direção à casa dos 12% ao final do ano. A ata divulgada hoje coloca um freio nessa expectativa. Sem a âncora de uma sinalização futura, o custo do crédito permanecerá elevado por mais tempo, com impactos diretos sobre o consumo das famílias, o investimento das empresas e a dinâmica do mercado imobiliário. Para o brasileiro endividado, a notícia é que o alívio nos juros virá mais devagar do que se esperava no início do ano.
Fonte: Agência Brasil / Banco Central do Brasil





Comentários